Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/1822/7863

Title"E se tu fosses um rapaz?" : homo-erotismo feminino e construção social da identidade
Author(s)Brandão, Ana Maria
Advisor(s)Gonçalves, Albertino
Issue date28-Apr-2008
Abstract(s)O objecto teórico desta investigação é o processo de construção social da identidade, incidindo especificamente sobre a sua articulação com e entre homo-erotismo e género. Analisamos de que modo uma dimensão particular da vida de um conjunto de mulheres – a da sexualidade e dos afectos que lhe estão associados – se constitui como um traço central das suas identidades e dos seus modos de vida; qual a relação que estabelecem entre sexualidade e identidade de género; em que medida os discursos – religiosos, jurídicos, políticos, clínicos – produzidos acerca do género e da sexualidade interferem nos seus processos de construção identitária; finalmente, até que ponto essa dimensão das suas vidas tem impactos na gestão dos seus quotidianos e na relação com o Outro. Os resultados a que chegámos mostram que, tomando como objecto de análise um conjunto de casos particulares, é possível verificar tanto a presença de determinantes macrossociológicas nos processos de construção identitária e de organização da conduta, como a importância central de incluir na explicação sociológica o contributo dos actores. É o modo como estes pensam a realidade, independentemente de essa forma de pensamento não assumir as características da explicação científica, que determina a sua acção e o significado que atribuem à acção dos outros. Uma parte da explicação sociológica passa portanto, pela compreensão da dimensão subjectiva da realidade enquanto elemento integrante e fundamental do seu objecto. Ela exige, todavia, a elucidação das relações e das condições que ultrapassam o sujeito e a sua vontade. Esta investigação articula um conjunto de abordagens que permite a descrição das dimensões fundamentais de análise dos fenómenos identitários. Socorremo-nos, em especial, dos contributos de Mead, do interaccionismo simbólico, da fenomenologia, do construtivismo estruturalista de Bourdieu e da sociologia dos regimes de acção de Boltanski e Thévenot, que são usados ao longo de todo o relatório para sustentar as leituras dos fenómenos em apreço. A metodologia adoptada possui um carácter eminentemente qualitativo, indutivo e exploratório. O método de investigação foi o estudo de casos, tendo sido cruzados os contributos das técnicas de observação directa, entrevista e questionário. O recurso à observação directa destinou-se a facultar o acesso a um conjunto de mulheres que cumprisse o critério de selecção adoptado – terem mantido, ao longo das suas vidas, pelo menos uma relação amorosa com outra mulher –, bem como a contactar com o meio gay e lésbico e adquirir um certo domínio dos seus códigos particulares de conduta e de linguagem. A técnica de entrevista foi usada em dois momentos distintos da investigação. Foram realizadas entrevistas semi-directivas a dirigentes das principais associações gays e lésbicas portuguesas, tendo como propósitos fundamentais colmatar a ausência de investigação sobre a comunidade e a subcultura gay e lésbica nacional e traçar uma breve história da sua organização política. Este procedimento auxiliou a elaboração dos capítulos introdutórios deste relatório, permitindo obter pistas de aferição de similaridades e dissemelhanças entre o caso português e os de outras sociedades ocidentais economicamente desenvolvidas. Junto das mulheres que constituíram o objecto empírico central da investigação foram realizadas entrevistas de histórias de vida, que constituíram o material fundamental do estudo. O questionário, de administração directa, foi usado para a caracterização sociodemográfica de todos os entrevistados no que respeita ao sexo, à idade, ao grau de escolaridade (incluindo a área de formação, quando aplicável), à origem geográfica, à origem de classe e ao lugar individual de classe. Atendendo à informação recolhida, tornou-se evidente o ainda incipiente conhecimento que possuímos sobre a realidade portuguesa comparativamente ao que acontece com outras sociedades ocidentais. Os resultados parecem indicar que a forma como a sexualidade se constituiu como domínio particular de produção de saber e de regulação social entre nós apresenta alguma similaridade face a essas sociedades. Mas também acusam desfasamentos e dissemelhanças ligados a condições sociais, económicas e políticas peculiares. No que se refere especificamente à produção social da categoria do homossexual e da lésbica, à formação de comunidades e subculturas próprias e aos modos de vida dos seus membros, estamos também ainda muito longe do acervo de informação a que é possível aceder no caso do ocidente economicamente mais desenvolvido. No que respeita especificamente ao trabalho empírico desenvolvido, notamos a necessidade de incluir na análise dos modos como a categoria social da lésbica é apreendida e actualizada – ou recusada – pelos actores um conjunto de variáveis explicativas diferenciadoras. De acordo com os nossos resultados, o género, o habitus de classe e a posição que lhe corresponde, a pertença geracional, a origem geográfica e a trajectória pessoal surgem como factores particularmente discriminantes dos modos de fazer e representar a relação entre a identidade global do actor, a sua identidade de género e a sua identidade sexual. Esta constatação exige aprofundamento, nomeadamente devido à composição etária e de classe do nosso objecto empírico e decorre tanto da existência de indícios nos discursos das entrevistadas de diferenças significativas ao nível da relação entre género, sexualidade e identidade de acordo com aquelas variáveis, como da verificação da sua pertinência explicativa face às narrativas analisadas.
This research’s theoretical object is the process of social construction of identity. It focuses specifically on the articulation between identity, homo-eroticism, and gender. It analyses: how and whether a particular dimension of the lives of a group of women – sexuality and its emotional elements – becomes a central feature of their identities and ways of life; the relationship they establish between sexuality and gender identity; how religious, juridical, political, and clinical discourses about gender and sexuality hinder their identity construction processes; and finally, to what extent that dimension of their lives has impacts on their daily lives and on their relationship with the Other. Results show that through the analysis of individual cases it is possible to observe the presence of macro-sociological determinants in identity construction processes and in the organisation of conduct, as well as the crucial importance of including the actors’ contribution in sociological analysis. It is the way reality is thought by actors, despite the fact that their ways of thinking do not assume the characteristics of scientific explanation, that guides their action and the meaning they attribute to the action of others. Part of the sociological explanation therefore requires understanding the subjective dimension of reality as an integral and fundamental characteristic of its object. However, it also calls for the elucidation of the relationships and circumstances beyond the subject and his/ her will. This investigation articulates a series of theoretical approaches in order to describe the fundamental dimensions of analysis of identity phenomena. We use especially the contributions of Mead, symbolic interactionism, phenomenology, Bourdieu’s structuralist constructionism, and Boltanski e Thévenot’s sociology of the regimes of action, which are used all through the report to support interpretation. This investigation’s methodology has an eminently qualitative, inductive, and exploratory character. Case-study is the research method adopted, along with the contribution of social research techniques such as direct observation, interview, and questionnaire. Direct observation aimed at gaining access to a group of women who conformed to a single selection criterion – having had, during their lives, at least one homoerotic relationship –, as well as to ensure a certain understanding of the gay and lesbian subculture’s conduct and language codes. Interviews were used in two distinct moments and forms. Semi-structured interviews were accomplished with the leaders of the major Portuguese gay and lesbian associations with the purposes of compensating the absence of research about the Portuguese gay and lesbian community and subculture, and to allow for a brief sketch of the history of its political roots and organisation. This procedure helped elaborating the report’s introductive chapters, allowing for comparisons of similarities and dissimilarities between the Portuguese case and that of other economically developed western societies. Life-story interviews were conducted with the women who composed the investigation’s fundamental empirical object. They constitute the study’s primary empirical material. A questionnaire directly administrated was used to characterise all interviewees in social-demographical terms. It included variables such as sex, age, education (including degree area, when applicable), geographical origin, class origin, and individual class position. Considering the information obtained, it has become obvious the incipient knowledge about the Portuguese reality when compared to other western societies. Results point out to a certain similarity with the latter concerning the way sexuality has become a particular dominion of expertise and social regulation. But they also point out to hindrances and dissimilarities linked to specific social, economical, political, and historical features. Concerning specifically the production of the social category of the homosexual and the lesbian, the formation of specific communities and subcultures, and their members’ ways of life, we are still very distant from the amount and quality of information accessible regarding the economically developed West. Additionally, we notice the need to include in the analysis of the ways the social category of the lesbian is apprehended and actualised – or refused – by women a set of differentiating explicative variables. According to our results, gender, class habitus and class origin, generation, geographical origin, and personal trajectory appear to be particularly discriminant factors of the ways of doing and representing the relationship between the women’s global identity, their gender identity, and their sexual identity. This findings call for further research and expansion, namely considering the age and class composition of our empirical object, and are supported both by suggestions found in the interviewees’ discourses, and by the corroboration of those variables explanatory pertinence in the case of their own narratives.
TypeDoctoral thesis
DescriptionTese de Doutoramento em Sociologia - Ramo de Teorias e Metodologias Fundamentais
URIhttp://hdl.handle.net/1822/7863
AccessRestricted access (UMinho)
Appears in Collections:BUM - Teses de Doutoramento
CECS - Teses de doutoramento / PhD theses

Files in This Item:
File Description SizeFormat 
Ana Maria Simões de Azevedo Brandão_capas.pdf
  Restricted access
27,9 kBAdobe PDFView/Open    Request a copy!
TESE _versão definitiva_.pdf
  Restricted access
2,48 MBAdobe PDFView/Open    Request a copy!

Partilhe no FacebookPartilhe no TwitterPartilhe no DeliciousPartilhe no LinkedInPartilhe no DiggAdicionar ao Google BookmarksPartilhe no MySpacePartilhe no Orkut
Exporte no formato BibTex mendeley Exporte no formato Endnote Adicione ao seu ORCID