Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/1822/3282

TitleA experiência da criança cigana no jardim de infância
Author(s)Ventura, Maria da Conceição Sousa Pereira
Advisor(s)Sarmento, Manuel Jacinto
Issue date2004
Abstract(s)A presença de crianças de etnia cigana, em contextos de educação formal, é um “fenómeno” recente que, cada vez mais, ocorre na sociedade portuguesa. Tal situação coloca as crianças perante a incontornável necessidade de se confrontarem e de se relacionarem com outras crianças ciganas e não ciganas, que transportam consigo um conjunto de representações do que significa ser criança cigana e não cigana. Estas representações permeiam as interacções entre as crianças, num contexto de educação formal, onde existe uma ordem social adulta monocultural destinada à totalidade das crianças. No sentido de procurar compreender como é que as crianças de etnia cigana vivem a sua experiência num JI, em que existem outras crianças - ciganas e não ciganas - leva-se a cabo uma pesquisa num JI do ME. Esta, insere-se no âmbito de uma metodologia de orientação etnográfica, onde se privilegiou a observação participante - técnica capaz de colocar o investigador face à possibilidade de aceder aos mundos sociais e culturais das crianças e, assim, propiciar a recolha de informações em primeira mão, que permitam descodificar os sentidos por elas atribuídos à sua experiência vivida no JI, na vida de todos os dias. Ao longo do trabalho, tenta-se perceber (i) a ordem social instituída no JI, nomeadamente, no que concerne à organização do espaço/tempo, à distribuição e organização dos materiais por forma a explicitar, as suas regras e rotinas; (ii) de que maneira, perante a ordem institucional, as relações entre os grupos de pares se vêem dinamizadas ou constrangidas, e (iii) o(s) modo(s) como, no JI, as crianças se relacionam com aquela ordem institucional, ali (re)construindo as suas próprias ordens sociais. Procuram-se, assim, entender os processos interaccionais que emergem e se desenvolvem entre as crianças, no decorrer das diferentes rotinas implementadas no JI, nomeadamente, nos momentos da apresentação das surpresas, ou nos momentos do brincar e da arrumação. Tem-se, igualmente, a intenção de vislumbrar de que maneira as crianças se aceitam ou se rejeitam, superam (ou não) as distâncias que social e etnicamente as separam e de que modo interagem, cooperando no desenvolvimento de acções comuns, partilhando as culturas de pertença social, étnica, de género e de classe, e as culturas infantis – brincar/ jogar com outros. Sendo este estudo de âmbito exploratório, não ousamos fazer generalizações. No entanto, para os objectivos deste trabalho, torna-se pertinente referir a constatação de que as crianças de etnia cigana são as que mais explicitamente afrontam a ordem social adulta e as que, de modo velado ou declarado, evidenciam estratégias de a contornar, afirmando-se como actores sociais competentes, sobretudo, quando se trata de rotinas e regras que exigem maior imobilidade e se traduzem, por isso, em maior “violência simbólica” (Bourdieu e Passeron, 1978). De igual modo, se dá conta de processos de inter exclusão sociais, entre os dois subgrupos de crianças – ciganas e não ciganas –: geralmente, para as brincadeiras de grupos de pares, as crianças ciganas são as menos procuradas pelas não ciganas. Por outro lado, ocorrem processos de intra exclusão social entre as próprias ciganas, sobretudo com crianças ciganas pertencentes a um nível sócio económico inferior. Assiste-se, ainda, a situações em que as crianças de etnia cigana se aceitam mutuamente, em especial, quando se trata de crianças do mesmo nível sócio económico. Emerge assim, como dimensão transversal às relações sociais de etnia, a variável classe social. No entanto, em situação de jogo, as crianças ciganas e não ciganas, não obstante a presença notória de estereótipos e preconceitos, desenvolvem acções comuns, brincando umas com as outras. Tal facto, leva-nos a considerar que o brincar é um valor de carácter universal para as crianças, na medida em que, entre brincar sozinhas e brincar com outros, a sua opção, independentemente da etnia classe social de género ou idade, é brincar com outros.
La présence d’enfants d’ethnie gitane, dans les situations d’éducation formelle, est un «phénomène» récent qui, de plus en plus, a lieu dans la société portugaise. Cette situation met les enfants devant l’incontournable nécessité de se confronter et de se mettre en relation avec d’autres enfants gitans et non-gitans qui transportent avec eux-mêmes un ensemble de représentations sur ce qui signifie être et ne pas être gitan. Ces représentations entremêlent les interactions entre les enfants dans une situation d’éducation formelle où il y a un ordre social adulte monoculturel destiné à la totalité des enfants. Pour comprendre comment les enfants d’ethnie gitane vivent leur expérience dans une école maternelle (EM), où il y a d’autres enfants –gitans et non-gitans - on fait une recherche dans une EM du Ministère de l’Éducation. Celle-ci fait partie d’une méthodologie d’orientation ethnographique où l’on a privilégié l’observation participante – technique capable de mettre l’investigateur devant la possibilité d’accéder aux univers sociaux et culturels des enfants et, ainsi, rendre propice la récolte d’informations de première main, qui permettent décoder les sens attribués par eux à leur expérience vécue dans la EM, dans la vie de tous les jours. Tout au long de ce travail, on essaie de comprendre (i) l’ordre social institué dans l’EM, nommément, en ce qui concerne l’organisation de l’espace/temps, la distribution et l’organisation des matériaux pour expliciter ses règles et routines; (ii) comment, face à l’ordre institutionnel, les relations entre les groupes de pairs sont dynamisées ou contraintes et(iii) la façon dont, dans l’EM, les enfants entrent en relation avec cet ordre institutionnel en y (re)construisant leurs propres ordres sociaux. On essaie, ainsi, de comprendre les processus interrelationnels qui émergent et qui se développent entre les enfants sur le cours des différentes routines implantées à l’EM, nommément, dans les moments de la présentation des surprises ou dans ceux des plaisanteries et de l’arrangement. On veut aussi vislumbrer de quelle façon les enfants s’acceptent et se rejettent, surpassent (ou pas) les distances qui les séparent social et ethnetiquement et de quelle façon interagent, coopérant au développement d’actions communes, en partageant les cultures d’appartenance sociale, ethnique, de genre et de classe et les cultures enfantines – plaisanter/jouer avec les autres. Étant cette étude de nature exploratoire, on n’ose pas faire des généralisations. Cependant, pour les objectifs de ce travail, il est pertinent de mentionner la constatation de que les enfants d’ethnie gitane sont ceux qui plus explicitement affrontent l’ordre social adulte et ceux qui, d’une façon cachée ou déclarée, mettent en évidence des stratégies pour la contourner, s’affirmant comme des acteurs sociaux compétents, surtout quand il s’agit de routines et de règles qui exigent une plus grande immobilité et se traduisent, donc, en une plus grande «violence symbolique» (Bourdieu et Passeron, 1978). Pareillement, on se rend compte de processus d’inter exclusion, entre les deux sous groupes d’enfants - gitans et non-gitans-: en général, pour les plaisanteries de groupes de pairs, les enfants gitans sont les moins cherchés par les non-gitans. D’autre part, il y a lieu des processus d’intra exclusion sociale entre les enfants gitans eux-mêmes, surtout entre ceux d’un niveau socio-économique inférieur. On assiste, encore, à des situations dans lesquelles les enfants d’ethnie gitane s’acceptent mutuellement, en particulier, quand il s’agit d’enfants du même niveau social. Ainsi, la variable classe sociale émerge comme dimension transversale aux relations sociales d’ethnie. Cependant, dans un contexte de jeu, les enfants gitans et non-gitans, malgré la présence notoire de stéréotypes et de préjugés, développent des actions communes, s’amusant les uns avec les autres. Ce fait, nous emmène à considérer que l’amusement est une valeur de character universel pour les enfants, dans la mesure où, entre s’amuser seuls et s’amuser avec les autres, leur option, indépendamment de l’ethnie, de la classe sociale, du genre ou de l’âge, est s’amuser avec les autres.
The presence of children from the gipsy ethnic group, in formal education contexts, is a recent “phenomenon”, which occurs in the Portuguese society more and more. Such situation makes children face the unbounded need of confronting and contacting themselves with other gipsy and non gipsy children, who carry with them a whole of images of what it means to be a gipsy and a non gipsy child. These images interpose interactions between children in a formal education context, where an adult mono-cultural social order meant for all children, exists. In trying to understand how children from the gipsy ethnic group live their experience in a kindergarten, where there are other children – gipsy and non gipsy – one does some research in a Ministry of Education kindergarten. This research is part of an ethnological orientation methodology, where the intervening observation was privileged – a technic which enables the researcher to access children’s social and cultural worlds and thus, to allow the gathering of first hand information, which permits the understanding of the meaning conferred by them to their self experience in the kindergarten, on everyday life. Along this work, one tries to understand (i) the social order established in the kindergarten, namely in what the organisation of space/ time, distribution and materials organisation are concerned, in order to explicit its rules and routines; (ii) in a way that, in presence of the established order, the relationships between equal groups are dynamized or constricted, and (iii) the (s) way(s) how, in kindergarten, children contact with that established order, there (re)constructing their own social orders. Thus, one looks for understanding of the interaction processes which emerge and develop between children, in course of the different established routines in kindergarten, namely, in the moments of presentation surprises, or in the moments of playing and of tidying. One has, equally, the intention of conjecture in what way children accept or reject themselves, surpass (or not) the distances, which socially and ethnically divide them and how they interact, co-operating on the development of common actions, sharing the cultures of social, ethnic, gender and class appendage and juvenile cultures – playing with the others. Being this study of exploratory ambit, we do not have the audacity to reduce to generalization. However, for the purposes of this work, it is relevant to refer the constatation that children from the gipsy ethnic group are the ones who more explicitly affront the adult social order and the ones who, either in a veiled or exposed way, show evidence of strategies to contour it, assuming themselves as competent social actors, mainly, when routines and rules that claim more immobility are concerned and therefore, mean more “symbolic violence” (Bourdieu e Passeron, 1978). In the same way, one realizes the social inter- exclusion processes, between the two sub- groups of children – gipsy and non gipsy –: generally, in group games, the gipsy children are the least wanted by non gipsy children. On the other hand, occur social intra- exclusion processes between gipsy children themselves, specially with gipsy children from a lower social and economical level. One observes also situations, in which the children from the gipsy ethnic group accept themselves reciprocally, specially, when we are talking about children from the same economic level. Thus, emerges, as transversal dimension to ethnic social relations, the variable social class. However, on a game situation, gipsy and non gipsy children, in spite of the notorious presence of stereotypes and prejudice, develop common actions, playing with each other. Such fact, makes us realize that to play is an universal value for children, as far as, between playing alone or playing with others, their option is, independently of the ethnic or social class, gender or age, to play with others.
TypeMaster thesis
DescriptionDissertação de mestrado em Sociologia da Infância.
URIhttp://hdl.handle.net/1822/3282
AccessOpen access
Appears in Collections:BUM - Dissertações de Mestrado

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